Da série “Poesia numa hora destas?!”
Luis Fernando Verissimo
1 – Cuidado com ela
Ela tem “fá” atrás de uma sinfonia “fala” atrás de uma revolução “agulha” atrás de uma epidemia “gula” atrás de uma congestão “lá” atrás de um raiar do dia “água” atrás de uma inundação “falha” atrás de uma correria “lua” atrás de uma paixão “fuga” atrás de uma histeria e “gala” atrás de um festão... “Fagulha” é uma palavra fria atrás de uma explosão.
2 – Consolo
O mundo está cheio de horrores de tragédias e terrores e gente de má fuça. Mas de vez em quando aparece cada tenista russa!
3 – Fracasso
Tive a ideia de escrever um poema sem rima intitulado “Fracasso” sobre a impossibilidade de fazer isto. Não consegui. Desisto.
4 - KK
Karl Kraus era de Viena cidade de marzipã onde nasceram o nazismo e a valsa e o Dr. Freud e o divã. Foi KK quem dedou primeiro o Império Austro-Húngaro sem calça e os apocalipses que viriam num mundo tornado tantã. Disse tudo que não diziam. Exemplo: que o mal dos poderosos era mentir para a imprensa e depois acreditar no que liam. KK, como seu viu também previu o Brasiu.
5 – Alívio
Um dia Borges sonhou que estava perdido num labirinto, angustiado, com medo de ficar preso lá dentro para sempre. E que quando chegara no centro do labirinto dera com um espelho. Só que o rosto que aparecia no espelho não era o dele! Borges suspirou aliviado. Obviamente, o sonho era do outro. E pôs-se a passear pelo labirinto, despreocupado.
6 – Injustiça
O pior desse grandes planetas vazio é o desperdício cênico: crepúsculos intermináveis, sete luas em volta – e nenhum poeta acadêmico.
7 – O primeiro poema
Versão criativista. Adão para Eva: - Isto é bom. Versão darwinista. Pré-homem para pré-mulher: - Grwkqrtw! Mas no mesmo tom.
8 – Cena oitentista
Madame ofereceu: “Café, chá, absinto, um seio?” E depois, decepcionada: “Ele não disse a que veio”.
9 – Vida moderna
Se você me ama, digite um. Se só quer um programa, digite dois. Se pretende casar, digite três. Se quer desabafar, digite quatro. Se quer pedir perdão, digite cinco. Se quer uma explicação, digite seis. Se não sabe o que quer, desligue agora. Desculpe, bem, mas tenho hora!
Domingo, 11 de julho de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.